quinta-feira, 10 de junho de 2010

A primeira linha

Depois de tanto tempo do silêncio, a gente passa a entendê-lo melhor. Percebe que ele não é feito apenas da ausência de som, mas também da ausência de textura, de perguntas e respostas, de preocupações e gravidade. Por isso, flutuei calmamente em meio aos infinitos novelos de lã pelo tempo que se fez necessário.
Mas, de repente, sinto necessidade de rasgar um pedacinho do casulo. Separo as linhas de lã e olho pra fora, com certo receio da luz machucar os olhos, tão acostumados e quentinhos na escuridão do casulo. Mas, não machuca. Não arde, não pinica, não fere.
A luz que entra no casulo ilumina pequenos pedaços do corpo parado, chamando a atenção do novo olho. Novas cores, nova textura, novo som. A cor dos olhos não é a mesma, a cor das unhas não é a mesma.
Sentindo a descoberta, as linhas de lã começam a abrir, desenrolar, e sem aviso, entrar no novo corpo. Enrolam o coração, a mente, as mãos, a boca, a língua, e mesclam-se com todo o resto. Mas uma pequena parte do fio não vai por inteiro, resolve ficar para nunca ser esquecido, bem entre o nariz e a boca, dos dois lados do rosto.
Olhei pra mim mesma no espelho e contemplei as linhas, tão comumente chamadas de linhas de expressão. E, naquele momento, percebi que um nome nunca tinha feito tanto sentido.

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