quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Década

Engraçado como a gente assusta com as coisas mais óbvias. Outro dia, estava eu preocupada com as coisas do dia a dia (leia-se alunos, explicações gramaticais e apresentações de ppt) quando vi uma revista que perguntava para pessoas famosas a seguinte coisa: "Quais foram as coisas mais importantes que te aconteceram nessa década?". Década? Como assim década? Meu Deus! Já estamos terminando 2010!
Parece bobo, mas até esse momento não tinha me dado conta que essa foi a primeira década que incluia decisões que não eram feitas pelos meus pais, e sim por mim mesma. Que medo!
Pensei nesses anos que contemplaram meus 15 aos 25 anos de idade e tentei responder à pergunta feita pela revista. Deixei as lembranças correrem soltas pela mente e vi o que talvez fosse uma amostra daquele momento da morte, onde a nossa vida passa diante dos nosso olhos, e o que eu vi foi, basicamente, isso:
Me vi pedindo para estudar em outra escola, pois queria algo maior pra mim mesma, vi meu primeiro adeus aos pés do túmulo de uma grande amiga, caindo de joelhos no meio do cursinho com o papel escrito "aprovada",rodeada de novos amigos, festas, bares, provas, festa de formatura. Me vi conhecendo alguém muito especial e descobrindo que não existe metade da laranja, e sim duas laranjas inteiras que decidiram ficar juntas. Me vi em outro país, mais novos amigos, neve, inglês, uma nova paixão aparecendo...livros, regras, Teacher Tati. São Paulo, Ribeirão Preto, Campinas. Uma casa com meu amor, alunos, alegria quase suprema...
Abri os olhos, e notei que estava sorrindo. E então, com esse sorriso involuntário, descobri que tive momentos bons e momentos ruins, mas nenhum momento que eu preferiria esquecer. Guardo todos com muito carinho, e separo espaço pra próxima década.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A primeira linha

Depois de tanto tempo do silêncio, a gente passa a entendê-lo melhor. Percebe que ele não é feito apenas da ausência de som, mas também da ausência de textura, de perguntas e respostas, de preocupações e gravidade. Por isso, flutuei calmamente em meio aos infinitos novelos de lã pelo tempo que se fez necessário.
Mas, de repente, sinto necessidade de rasgar um pedacinho do casulo. Separo as linhas de lã e olho pra fora, com certo receio da luz machucar os olhos, tão acostumados e quentinhos na escuridão do casulo. Mas, não machuca. Não arde, não pinica, não fere.
A luz que entra no casulo ilumina pequenos pedaços do corpo parado, chamando a atenção do novo olho. Novas cores, nova textura, novo som. A cor dos olhos não é a mesma, a cor das unhas não é a mesma.
Sentindo a descoberta, as linhas de lã começam a abrir, desenrolar, e sem aviso, entrar no novo corpo. Enrolam o coração, a mente, as mãos, a boca, a língua, e mesclam-se com todo o resto. Mas uma pequena parte do fio não vai por inteiro, resolve ficar para nunca ser esquecido, bem entre o nariz e a boca, dos dois lados do rosto.
Olhei pra mim mesma no espelho e contemplei as linhas, tão comumente chamadas de linhas de expressão. E, naquele momento, percebi que um nome nunca tinha feito tanto sentido.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Silêncio

Eu poderia até dizer que a falta de postagens no blog é uma consequência de muito trabalho. Mas não seria inteiramente verdade. Tenho tido alguns momentos......mas o único pensamento que vive na minha mente é o silêncio.
Puro.
Com cara de nada.
Tricotando e assistindo TV.
Talvez seja resposta da terapia. Talvez esteja relacionado com a postagem anterior. Talvez eles se relacionem.Mas nunca vi o silêncio exigir por tanto espaço.
Dentro do silêncio, só existe o tricot. Novelos e mais novelos vão se transformando em um grande casulo em volta de mim. Não um casulo triste e marrom, mas um casulo colorido, com diferentes texturas, quentinho e confortável, para aquecer o frio que é consequência da falta de palavras.
No frio, as palavras vagam pela minha mente tentando passar para o teclado, mas não conseguem. Não organizam-se, não coexistem com o silêncio absoluto. Então sento, tricoto e assisto o mundo continuar a rodar, completamente alheio do grito silencioso mais alto que eu já ouvi.
Respeitemos, então.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Rei Sol (ou, dá-lhe Freud!)

Dentro das minhas características mais fortes está o fato de eu ser basicamente catastrófica. E por que não? Sempre fui uma boa contadora de histórias e, como diz a minha irmã, o exagero é só pra dar um tchã na história.
Mas quem me dera toda essa emoção se reservasse apenas para o exercício Forrest Gump. Não consigo segurar a característica, e acabo usando-a em absolutamente tudo. Claro que isso fascina um grupo seleto de pessoas, sendo a minha terapeuta a maior fã de todas.
Depois de algum tempo de terapia, percebi que passei a falar menos. Passei a achar menos. Passei a ficar mais quieta quando com certeza teria dito alguma coisa. E, recentemente, um problema sério apareceu. Depois de uma hora de desabafo com a personificação da paciência (obrigada lindo) me acalmei. E não dividi minha opinião com mais ninguém. Fiquei quieta. Depois de poucos dias, o problema, facilmente, terminou. Sem nenhuma participação de nenhuma das minhas tão cruciais opiniões. Senti-me completamente insignificante. Um pedacinho de nada no meio de uma coisa muito maior. Mas aí percebi o mais importante: o dito do problema não existia mais. Então, por que eu estava tão preocupada?
Depois desse pensamento, desci do meu trono de ouro brilhante que fica no meio do universo e fui dar uma volta por aí. Simples assim.

You don´t deserve a point of view
If the only thing you see is you.
(Paramore)

terça-feira, 13 de abril de 2010

Dicas de livros 3 - Nove Estórias.

Para os meros mortais que têm que dividir seu tempo livre de 3 horas diárias com amigos, família, namorado, atividades extras, academia, blog e cultura, aqui vai uma dica de livro de contos: Nove Estórias, do maravilhoso J. D. Salinger. É muito difícil encontrar o adjetivo certo para descrever esse homem e seus contos...mas podemos dizer que o livro é, no mínimo, surpreendente. Salinger descreve, com muita sutileza e alguma ironia, situações curtas e sem aparente importância, mas que mexem e bagunçam com os sentimentos mais primitivos e inesperados dos personagens. É um dedo na ferida do humano, mas fazendo cara de conteúdo e de despreocupação. Atenção especial ao primeiro conto: 'Um Dia Ideal para os Peixes-Banana':

Segurou os tornozelos de Sybil e os empurrou para a frente e para baixo, fazendo a bóia deslizar por cima da crista da onda. A água empapou os cabelos louros de Sybil, mas o grito que ela deixou escapar, veio carregado de prazer.
Quando a bóia voltou a estabilizar-se, ela afastou com a mão uma mecha de cabelos molhados que lhe caíra sobre os olhos e informou:
__ Acabei de ver um.
__ Viu o quê, meu bem?
__ Um peixe-banana.
__ Deus meu! Não me diga! Ele estava com alguma banana na boca?
__ Tava __ ela respondeu. __ Com seis.
O rapaz de repente segurou um dos pés molhados de Sybil, que pendia da beirada da bóia, e o beijou.
__ Ei! __ disse a propietária do pé, virando-se para trás.
__ Ei coisa nenhuma! Agora vamos voltar. Você já brincou bastante?
__ Não!"

Trecho de Um Dia Ideal para os Peixes-Banana.

Leia esse livro. Ou melhor, sinta esse livro. O sentimento é cru, irônico e genial.

domingo, 11 de abril de 2010

A teoria do lixo.

Acho maravilhoso cada momento em que sinto-me envergonhada. Isso com certeza quer dizer que o que trouxe a vergonha é algo verdadeiro ou de significativa importância. Passada a vergonha, sempre vem a reflexão, seguida novamente da vergonha, mas enfrentada com mais humor.
Esses dias tenho trabalhado como louca, o que resultou numa grande ausência de novos textos no meu blog e na vida das pessoas que se importam comigo (desculpe gente). Não tenho tempo de fazer absolutamente nada, o que culmina em visitas noturnas ao Pão de Açúcar, novelos e novelos de tricô deixados às traças e um namorado nutrindo um relacionamento forte e duradouro com um Xbox.
Por essas e outras, resolvi atrasar mais uma visita noturna ao supermercado e fui tomar uma cerveja com as amigas, para relaxar o espírito e saber das novidades do mundo social. Nessa conversa, depois de eu ter relatado o quanto sofria com a falta de tempo, uma amiga contou que naquele dia tinha conversado com seus alunos para acabar com uma discussão boba que havia tomado conta da aula: uma aluna havia perdido um caderno e por isso não parava de chorar. Para acabar com a odisséia do caderno, ela pegou a lata de lixo da sala de aula e colocou em cima da mesa, bem em frente dos alunos, e disse: "Vocês conhecem a teoria do lixo?" Eles responderam que não. Ela continuou: "Olhem a lata de lixo em cima da mesa. Vocês podem chorar sobre a lata, reclamar que a lata atrapalha a aula, escrever um blog sobre os seus sentimentos e criar inúmeras comunidades do orkut para reunir todas as pessoas que odeiam essa lata de lixo, não é? Então, essa é a opção número um. Mas sabem qual é a opção dois?" Todos pareciam estar interessados. "A opção dois é essa!" Ela levantou, pegou a lata de lixo e tirou de cima da mesa. Simples assim. "A opção dois é levantar a bunda da cadeira e fazer alguma coisa que presta a respeito do que incomoda. Agora, encontre esse caderno e fique quieta."
Depois dessa, fui ao mercado, fiz compras, voltei pra casa, dei atenção ao namorado, tricotei um cachecol inteiro e dei um haduken na minha lata de lixo. Envergonhada? Claro que sim. Mas sempre aberta à opção número dois.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Um momento de liberdade.

É com muita vergonha que começo esse post.
Tomada por hormônios femininos, eu precisava de uma coisa doce. Precisava. Mataria por um doce. Mas, ao mesmo tempo, estou eternamente acorrentada pelas cordas da dieta e da culpa de não ter o corpo da próxima capa da revista VIP. Momentos únicos que fazem parte da delícia de ser mulher.
Então, como um raio de luz no meu momento negro de ódio hormonal, minha amiga sugeriu a salvação:
"Toma um chicabon, amiga. Tem pouca caloria."
Com o pouco de razão e humor que me restavam naquele momento, abri o maravilhoso mundo dos sorvetes cremosos com caldas, amêndoas, caramelos e drogas alternativas apenas sentidas pelas mulheres e peguei o sorvete magrinho e simplezinho. "Mas que coisa mais simples esse sorvete", comentei. "Como que esse filetinho sem graça de sorvete poderia....ow! Só isso de caloria e gordura?"
De repente, tudo mudou. Pra sempre. Não lembro nem de ter pagado a conta do restaurante, só de rasgar em pedaços a embalagem e tomar o melhor sorvete da minha vida. Nem liguei a hora que babei sorvete na blusa que iria me acompanhar por mais 5 aulas naquele dia. E daí? Os alunos que entendam esse meu momento chocolate derretendo na boca e tomando todos os lugares da minha pequena mente. Tudo era lindo.
Só que, um momento, ele acabou.
Tudo voltou ao normal. O mau humor, a falta de esperança e paciência com todas as pobres criaturas divinas. A droga da mancha parecia maior sem o véu do barato do chocolate (única coisa realmente valiosa do mundo feminino). Nada mais valia a pena.
Agora, com mais clareza e menos hormônios, eu fico completamente sem graça com a intensidade das emoções provocadas por aquele sorvetinho tão simples. Entendo como somos suscetíveis às emoções, mas ainda acho que aquele sorvete era alguma edição especial do tipo: Chicabon sabor liberdade. Só assim pra uma mulher de dieta tomar um sorvete e se deixar levar pelo pensamento racional de que: 1 - culpa não emagrece e, 2 - melhor um sorvete agora do que uma notícia de jornal depois: "Professora mata alunos indefesos por não entregarem a redação." Não é?

quarta-feira, 24 de março de 2010

Dicas de livros 2 - Menino Oculto

Pessoal, essa dica vai para quem quer ler algo realmente diferente dos best sellers que estão por aí. Conheçam Menino Oculto, de Godofredo de Oliveira Neto, que conta a história de Aimoré, um professor de literatura fascinado por arte e que possui a capacidade de reproduzir qualquer quadro que já viu na vida. Depois de ser sequestrado por causa de suas reproduções, Aimoré conta diferentes partes de sua vida, cada uma representada e reforçada por amigos e amores que personificam cada momento de alegria, sexo, ódio e discussões sobre arte. A história não segue uma linha do tempo lógica, o que intriga e surpreende a cada capítulo. Dica maravilhosa de uma amiga formada em Letras pela UNICAMP.

"O capataz está aqui atrás, com a cabeça no chão do jipe, senti com a mão direita, também está todo ensangüentado, o quadro não está mais no banco de trás, claro, o papel em que estou escrevendo, apoiado no centro do volante, é um pedaço do papel pardo que embrulhava a obra do Portinari. Desliguei os faróis, economiza bateria, o reflexo do capim continua a embaralhar os meus olhos, enredar as minhas idéias, confundir tempo e espaço, ficção e realidade."
Pensamento de Aimoré - Menino Oculto

Um livro moderno e diferente para abrir as portas da mente.

domingo, 21 de março de 2010

A boa comunicação.

Noite dessas, saí com o meu namorado para um chopp artesanal em um bar alemão aqui de Campinas. Bom bar, bom chopp, merecia uma boa conversa filosófica. Cercados de pessoas que talvez não concordassem com essa idéia, pois discutiam coisas do tipo: "se eu fosse ela, eu não teria feito isso", ou "tentei convencer papai de que maconha é legal", começamos a conversar sobre comunicação. Eu realmente acredito que todos têm o direito de dizer o que pensam, desde que consigam arcar com as consequências disso, e que, mais do que isso, as pessoas que tinham algo realmente interessante a dizer tinham até certa obrigação de passar isso para frente. Minha companhia não concordava. Dizia que, infelizmente, não há ouvidos para a boa comunicação. Há tempos a boa comunicação tornou-se vertical, ou seja, algo de pai pra filho, e não mais horizontal, alcançando todo mundo independente da relação que tinham. “Ninguém mais quer ouvir”, ele disse. Como comunicóloga, não consigo me dar o luxo de acreditar nisso, mas como pessoa e público-alvo de inúmeras coisas, não pude deixar de concordar um pouquinho. Mas juro que doeu. Olhei em volta e as conversas iam de mal a pior. “... aí aquela retardada falou pra ele que eu tinha mentido...", “... mas eles já estão na casa faz tempo e não aconteceu nada...", “... aI gEnTe, mE aTraSei pq TaVa NoS rOlêS com A gAlERa, tipo, MUITO mAssA esSe PiCo." Voltei pra casa desolada. Mas jamais derrotada. Sentei na frente do computador, abri meu blog e dividi meus pensamentos com quem quisesse ler. Decidi que não iria deixar de passar meus pensamentos adiante ou até mesmo minhas dicas de bons livros. Se ao menos uma pessoa ler esse post e pensar em tudo de bom que tem para passar para os outros e realmente fazer algo a respeito, ou talvez pesquisar algo que goste e contribuir com os que estão espalhando a boa comunicação, já estarei feliz. Comemorarei a cada pessoa que seguir esse blog pessoal e tantos outros que contribuem para a discussão engrandecedora e o não emburrecimento geral da população. Dá-lhe conhecimento. Dá-lhe ação. Dá-lhe os dois juntos.

Vemnimim.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Dicas de livros - O Morro dos Ventos Uivantes

Já que estamos compartilhando experiências, por que não compartilhar as melhores experiências também sobre leitura?
Sim, vamos lá.

Para a primeira dica, vou indicar um dos livros que mais me surpreendeu atualmente: O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. A história se passa em uma fazenda isolada nas montanhas chamada Morro dos Ventos Uivantes, e trata da história de amor de dois amigos de infância, Catherine e Heathcliff, que são separados por adversidades da época e também por eles mesmos. A luta interna das personagens contra partes de sua personalidade quebra todos os paradigmas de livrinhos de romance de época, onde todas as personagens são lindas e alguém termina em um convento. A história é narrada por Nelly, a única personagem que não está sendo dominada pelas vontades loucas, que descreve a realidade do ódio, do amor, do desespero e da loucura, rasgada de uma maneira clara e crua.

"Não quero vê-lo turvado pelas lágrimas, nem desejá-lo entre as paredes de um coração dolorido, mas sim estar com ele, e nele, na verdadeira acepção das palavras." Catherine

"Se o amor dela morresse, eu arrancaria seu coração do peito e beberia seu sangue." Heathcliff

De novo, surpreendente. Um clássico não é um clássico à toa.

terça-feira, 9 de março de 2010

Cavalgadas, mistérios e emoções.

Acho interessante como lidamos com as emoções hoje em dia. Nunca havia pensado nisso como algo pálpavel, mas tive esse pensameto enquanto vasculhava minha humilde biblioteca particular (leia-se 25 livros em um armário de corredor) em busca do próximo livro que iria ler.
Nietzsche? Muito pessimista. Chico Xavier? Muito espiritual. Bernard Cornwell? Não, queria algo mais recente.
Eu queria me sentir intrigada, envolvida, reter informações novas que sempre, e eu digo sempre, serão assunto para mais uma sessão boteco. Ah, e dessa vez, algo fácil, tenho trabalhado como louca. Então, junto com mais um milhão de pessoas, eu decidi ler O Símbolo Perdido, de Dan Brown.
Bingo. Saberia que iria sentir exatamente o que estava procurando. Emoções escolhidas a dedo para os próximos dias.
Parei a mão no ar junto com este pensamento. Observei todos os livros que já comprei algum dia e encarei meus amigos de todas as noites: Agatha Christie, Vladimir Nabokov, Shakespeare, Stephen King, Emily Bronte, Stephenie Meyer (sim, eu me rendi aos encantos), Marion Zimmer Bradley (obrigada Manu) e, pasmem, Nietzsche.
Sentei no chão e pensei sobre as escolhas que fiz. Que momento único. Acho que poucas pessoas tem a chance de reviver suas próprias escolhas em apenas alguns segundos.
Observando meus livros, percebi exatamente o tipo de emoção que me faz feliz e, diante daquele pensamento, ri. Ri muito. É delicioso quando algo sobre você mesmo fica tão claro na sua mente. Fechei os olhos e me deliciei com o meu poder de memória sobre cada livro que já li na vida e revivi diferentes emoções, cavalgadas com heróis, magias com fadas, mistérios em trens, amores incondicionais. Apreciei cada lembrança e, quando voltei da viagem, levantei-me e terminei o movimento inicial. Peguei o livro do Dan Brown, fechei a porta do armário (digo, de minha biblioteca particular) e fui em direção ao sofá.
"Mas que surpresa", pensei. "Sempre busco por livros naquele lugar, mas nunca havia notado o maravilhoso espelho que há dentro daquele armário."

sexta-feira, 5 de março de 2010

Freud e eu.

Bom,para fins de auto-conhecimento, faço terapia toda sexta. Mas, já fazia um tempo que não conseguia lembrar os meus sonhos, o que deixa a terapia muito mais sem profundidade. Minha relação com freud estava se deteriorando. Por isso, resolvi dar uma mãozinha ao meu inconsciente: fui jantar no Outback na quinta e comi como se não houvesse amanhã, junto com quase 1,5 litro de chopp.
É claro que deu certo. Sonhei tanto que acordei cansada.
Mas não foi bem o que eu estava esperando: no meio de muita bagunça, sonhei que estava vestindo uma roupa de coelhinha, com rabinho de pompom e tudo, enquanto discutia com uma pessoa.
Enquanto dirigia até a terapeuta, pensei seriamente se contaria esse detalhe do sonho. Não tinha nada a ver as minhas questões pessoais com a minha preferência por fantasias de animais. (minha fantasia de gata que o diga, ela já vai para as festas sozinha).
Chegando lá, resolvi que já que estava pagando caro pela consulta, iria contar tudo tintin por tintin.
20 minutos de descriçao depois, pensei que ela ia rir da minha cara e perguntar o que muita gente já me perguntou muitas vezes:
"O que você toma antes de dormir? Também quero!"
Fiquei em silêncio esperando a pergunta. Ela olhou bem nos meus olhos e fez uma pergunta, mas não a que eu estava esperando.
"O que você acha que a roupa de coelhinha pode te dizer?"
As palavras começaram a sair da minha boca. Nem eu sabia o que estava dizendo, é quase como incorporar uma entidade. Nisso, com o sonho, a roupa de coelhinha e mais um monte de idéias, a terapeuta fez uma trança e me mostrou tudo junto, organizado e fazendo sentido. Depois dessa, peguei o meu queixo que estava no chão, meu rabinho de pompom e voltei pra casa. No caminho de volta, comentei pro meu passageiro:
"Você sabe o quanto você é bom, Freud?"
Como resposta, ele disse:
"É claro que sim. Que pergunta tonta."

terça-feira, 2 de março de 2010

o mundo de ônibus.

Dizem que você atrai tudo o que acontece na sua vida. Se isso for verdade, preciso rever alguns conceitos, porque tenho a péssima tendência de atrair gente bizarra quando viajo de ônibus, o que acontece com certa frequência.


Dessa última vez, quando estava voltando do aniversário de uma amiga em Rio Preto, deparei com mais uma pérola. Sentei ao lado de uma velhinha bem arrumadinha, mas com cara de completamente perdida, como se tivesse escapado do asilo durante um ataque de sonambulismo, acordado na cadeira do ônibus e estivesse com medo de fazer alguma pergunta do tipo: oncotô? . Claro que isso não foi nenhuma surpresa pra mim, pois se fosse uma pessoa normal que estivesse na cadeira ao lado da minha eu teria estranhado e talvez quem iria parecer perdida era eu.
Bom, a viagem ia correndo enquanto ela olhava em volta em busca de respostas, e o meu medo era que a única coisa que ela encontrava era eu, moça de família, loira e arrumadinha, qualidades dignas da época em que ela ainda não acordava em cadeiras de ônibus da Itamarati.
Não deu outra. A meiga velhinha esperou que eu caisse no sono para me acordar e fazer perguntas. Ela chacoalhou o meu braço e, depois que eu realizei o que estava acontecendo, me ajeitei na cadeira e olhei-a esperando algum contato verbal que, acreditem, não aconteceu. Ficamos em silêncio uns 30 segundos até que eu perguntei se ela precisava de alguma coisa. Ela disse que não sabia em que cidade estava (pasmem) e que precisava ligar pra filha dela a cobrar, mas não sabia como. Peguei seu celular modelo tijolo 2000 e fiz a ligação.
Depois disso, me senti meio mal por ter julgado a velhinha já que eu, doce menina jovem 25 anos também não sei explicar direito o que é o twitter. Considerei esse pensamento por alguns segundos e me senti feliz por ter aprendido uma lição nessa viagem de ônibus. 10 segundos depois ela, feliz da vida com a nova lucidez, quis conversar. Toda a iluminação momentânea se dissipou e, mais uma vez, eu tive que conversar com alguém no ônibus. Como que a gente evolui assim?

Tá bom vai. Vamos quebrar barreiras.

Uma coisa que as pessoas entendem sobre mim logo de cara é que eu defendo opiniões. Acho digno e nunca me sinto confortável com meio termos. Situação que gera, como você pode imaginar, várias cuspidas caindo na testa, motivos de choros momentâneos e risadas no bar um tempo depois.
O blog é uma delas, claro. Nunca entendi qual era o motivo, causa, razão ou circunstância que leva uma pessoa a escrever sobre seu dia-a-dia pra todo mundo ver. E claro, me mantive a opinião enquanto todas as pessoas do mundo se renderam aos trens da net pessoal e foram embarcando. Até que fiquei sozinha na plataforma "cartas e velhinhos teimosos". Já não basta a vergonha que eu passo na praia com o fato de eu morrer de medo de ondas e ter que ficar no rasinho com todas as mães, crianças e baldinhos de areia, enquanto a turma bate altos papos no fundo. Tá bom, então. Chega de velhinhos, mães, crianças e uma dimensão paralela ondem vivem meus cuspes e todos os meus rabinhos de cabelo. Cortei o cabelo, abracei o cuspe do "nunca vou ter um blog", me esfreguei nele com gosto e, bem melecada, comecei o blog.
Risquei o mouse no chão e falei: vem ni mim, cuspe.